Encontro que ocorre gratuitamente no Instituto Casa Astral (bairro do Poço da Panela, Zona Norte do Recife), nesta quinta-feira (28 de maio), conclui temporada no Recife, onde o artista destaca as tradições indígenas na cultura popular
“A gente continua essa história, essa estrada das aulas-espetáculo”. A continuidade do “Maracatu de Baque Solto e as Histórias dos Mestres de Terreiro”, título da mais nova circulação do mestre e artista Manoelzinho Salustiano, pernambucano natural do município de Abreu e Lima. Ele conclui essa temporada pelo Recife no Instituto Casa Astral (bairro do Poço da Panela, Zona Norte da cidade), dia 28/05 (quinta-feira), às 19h (abertura dos portões de acesso ao local: 18h30). Durante o encontro, a apresentação tem recurso de acessibilidade em Libras (Língua Brasileira de Sinais) para pessoas com deficiência auditiva. A classificação indicativa é livre.
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Atualmente com 56 anos de idade, Manoelzinho Salustiano faz atividades artístico-culturais com o objetivo de resgatar, conservar e fortalecer a cultura popular. Nessa aula-espetáculo, ele compartilha informações das tradições indígenas no Maracatu de Baque Solto, a partir da memória, território, oralidade, vivência, ancestralidade e tecnologias. Essas histórias são contadas com poesias, cantos, músicas e audiovisual (imagens e vídeos), além da realização de performances ao vivo de Caboclos de Lança, com Will Moura e mestre Lilo, e Arreiamá (conhecido também como Caboclo de Pena) por Jemerson Salu. Todos pernambucanos e brincantes da cultura popular. Inclusive, Jemerson e Lilo são sobrinhos do mestre Manoelzinho.
“A ideia dessa aula é para a gente entender a cultura do Maracatu de Baque Solto, que começa batendo o mulungu (uma árvore) dentro dos engenhos de cana-de-açúcar de Pernambuco e tem uma continuação. Uma cultura que tem ainda muito a se estudar, a se pesquisar… Uma cultura em que a principal dança é o currupio, nada mais, nada menos do que um toré indígena. Às vezes, por ser chamado de maracatu, acha-se que é de origem africana”, fundamenta Manoelzinho Salustiano.
Manoelzinho Salustiano é Doutor Honoris Causa (2020) e Notório Saber em Cultura Popular (2021), ambos pela Universidade de Pernambuco (UPE), campus Mata Norte. Os títulos conquistados reconhecem academicamente seus conhecimentos, envolvimento, contribuições, vivências, sensibilidade e continuidade, originários de tradições indígenas, afro-brasileiras, quilombolas e outras manifestações populares.
Ele destaca a necessidade de compartilhar com cuidado esses saberes da cultura popular por meio de diversas linguagens da arte (palavras, fotografias, encenações etc), da comunicação, da originalidade e de narrativas atuais. O propósito da aula-espetáculo “Maracatu de Baque Solto e as Histórias dos Mestres de Terreiro” é a visibilidade, a valorização e o pertencimento das expressões artísticas populares.
“Maracatu de Baque Solto é de origem indígena. Depois é que surgem as influências africanas, a partir dos anos 60, quando se coloca a corte do Maracatu de Baque Virado dentro do Maracatu de Baque Solto. Então, essa aula é para a gente pensar melhor, aprender ainda mais sobre o que é o Maracatu de Baque Solto, sua origem, de onde veio e para onde vai, o que se tornou e como está atualmente”, conta o mestre, que nasceu no dia 31 de outubro de 1969.
Durante as aulas-espetáculo, os Caboclos de lança e os de Pena encenam artisticamente como eram os conflitos entre os maracatus antes da época em que os enfrentamentos foram encerrados. “Essas coisas não aconteciam sem um sentido, tinham um significado e um motivo para ocorrer, e a sua explicação vem justamente da tradição indígena presente no Maracatu de Baque Solto”, declara o artista.
Manoelzinho sugere reflexões sobre a existência de uma referência imensa do Maracatu de Baque Solto. “A gente costuma ver muito caboclo de lança do maracatu em peças de publicidade, em propagandas, mas como se constrói um caboclo de lança? O que é um caboclo de lança? Só quem sabe essas respostas são as mestras e os mestres. O que a gente faz no baque solto tem como base a oralidade e essa transmissão de saberes”, completa.
As duas primeiras sessões do encontro “Maracatu de Baque Solto e as Histórias dos Mestres de Terreiro”, ambas realizadas no Teatro Hermilo Borba Filho, às 14h dos dias 19 (terça-feira) e 20 de maio (quarta-feira), tiveram a platéia lotada. Entre as presenças, Aluísio Almeida, presidente da Associação de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco (AMBS), Adelaide Costa e Adriana Silva, ambas do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), e Fabiano Santos, presidente da União dos Afoxés de Pernambuco (UAPE) e do Afoxé Alafin Oyó.
Manoelzinho atua em parceria com a sua filha Gabi Salustiano, que já vem desenvolvendo a atividade há alguns anos. O projeto também traz uma conexão com a referência bibliográfica do próprio mestre, cujo título é “Manoelzinho Salustiano: histórias de um mestre no terreiro”. Lançada em 2021, a obra recebeu o Prêmio Literatura Clarice Lispector 2022 na categoria melhor biografia.
Gabi Salustiano — historiadora, pesquisadora, produtora cultural e brincante da cultura popular — explica a escolha do título para as aulas-espetáculo, pautadas pela identidade racial, territorialidade, comunidade e classe social, assim como potencializadas pelo conceito de toda a ancestralidade.
“Ficou ‘Maracatu de Baque Solto e as Histórias dos Mestres de Terreiro’ porque tem como base a memória, já que no Maracatu de Baque Solto os conhecimentos são repassados pela tradição oral. Essa linguagem falada é compartilhada por quem veio antes, que repassa o saber para as pessoas mais novas, e é assim que vai continuando e se mantendo viva. É isso que faz um mestre da Cultura do Baque Solto”, acrescenta Gabi, que é formada em História.
“Maracatu de Baque Solto e as Histórias dos Mestres de Terreiro” tem incentivo público, com o financiamento do edital do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), por meio da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, da Secretaria de Cultura e da Prefeitura da Cidade do Recife. A realização é assinada pelo próprio Manoelzinho Salustiano, com produção pernambucana coletiva e autoral entre Gabi Salustiano, Ynan Produções e Br3ch4 Lab Audiovisual (Ingrid Veloso e Layane Santos), a identidade visual e design por Katarina Scervino e a assessoria de imprensa de Daniel Lima, além do apoio do Instituto Social e Cultural Casa Astral e do Apolo-Hermilo (Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas).
Artesão carnavalesco
Vale lembrar que Manoelzinho Salustiano é artesão de bordados, sobretudo carnavalescos. As suas obras de arte são feitas à mão, utilizando lantejoulas que criam cores, texturas e brilhos decorativos dentro da prática do bordado. “Eu não pinto, mas bordo!”, diz ele, que também confecciona as golas dos Caboclos de Lança, funcionando como mantos protetores, com toda a sua simbologia e impacto visual, e estandartes.
“Manoelzinho é um mestre de Maracatu de Baque Solto, de cavalo marinho, de mamulengo, que domina várias artes, os rituais religiosos, o fazer das fantasias e estandartes, o bordado, a confecção das indumentárias e muito mais. Ele sabe os cânticos. Não costuma cantar no maracatu, e mesmo assim explica como é que canta, fala a diferença de um samba, de um galope e de uma marcha”, detalha Gabi.
Audiovisual
Em 2025, houve o lançamento da websérie autoral “Que Baque Solto eu sou?”, criada e produzida por Manoelzinho. O audiovisual reúne seis episódios sobre mestres e mestras do maracatu rural, com o objetivo de ampliar e contribuir com a preservação das memórias dessa manifestação cultural.
Essa obra é contemplada com relatos, depoimentos e participações de diversas pessoas da cultura popular da Zona da Mata Norte de Pernambuco: Maria Viúva (do Maracatu Estrela da Tarde, do município de Glória do Goitá, e dona do único maracatu de buzina em atividade no estado); mestre Zé Flor (do Maracatu Leãozinho de Itaquitinga, que é do município de mesmo nome); mestre Jó (do Maracatu Galo Dourado de Lagoa de Itaenga, também do município de mesmo nome); mestre Jaime Viana (caboclo de lança do município de Tracunhaém); mestre João Maria (Maracatu Leão de Ouro da Vila Canaã, de Araçoiaba, Região Metropolitana do Recife); e Reginaldo Silva (mestre de apito da Maracatu de Baque Solto).
Mundo
Pela circularidade do tempo e sua concepção, o mestre Manoelzinho Salustiano levou a cultura popular para as Américas Central (Cuba – 1998 e 2010), do Norte (Estados Unidos – 2003 e 2014), e do Sul (Venezuela – 2008; Chile – 2024), além da Europa (França – 2005) e do continente africano (Cabo Verde – 2014). Nessas circulações por esses países, apresentou-se, facilitou oficinas e realizou aulas-espetáculos e palestras sobre artes, história e música, assim como realizou exposições dos seus trabalhos de bordados.
“Viajamos com as aulas-espetáculo ‘Mantos’. Ela ganhou esse apelido. Em maio de 2024, a gente apresentou na cidade do Recife a aula-espetáculo ‘Mantos: No Baque Solto da Cultura Popular, Maracatu, Memória e Mantos’. No final desse mesmo mês viajamos para o Chile com o projeto de intercâmbio “Mantos- Vestimenta, Memória e Identidade dos Povos Ameríndios, Tecendo Conexões entre Brasil e Chile”, em que nos apresentamos na Universidade Austral do Chile, em Valdivia, e no Instituto Guimarães Rosa em Santiago, no Chile. Ainda em 2024, Mestre Manoelzinho apresentou ‘Mantos: Maracatu de Baque Solto uma conexão com a natureza’ no Centro de Invenção Cultural em Brasília e no Museu do Mamulengo em Glória do Goitá. E em 2025 essa mesma aula também foi apresentada na Casa do Carnaval no Recife, e em 2026 no Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro. E agora chegou a vez do Recife receber essa nova aula-espetáculo ‘Maracatu de Baque Solto e as Histórias dos Mestres de Terreiro’”, lembra Gabi Salustiano.
Mestre Salustiano
Manoelzinho Salustiano também é multiplicador de saberes por ser o filho mais velho de Manoel Salustiano Soares, conhecido como Mestre Salustiano (1945-2008), cortador de cana, ator, rabequeiro, músico, compositor e artesão brasileiro da Zona da Mata Norte de Pernambuco (natural do município de Aliança). Já a sua mãe chama-se Tereza Maria Soares. Esse contexto significa o repasse de uma sabedoria familiar pela prática cultural. Manoel Salustiano, por exemplo, produziu espetáculos e uma diversidade de festas populares/folguedos tradicionais, com essa organização mantida até hoje pela família, preservando a identidade, formando e inspirando gerações e transformando socialmente.
Assim como seu pai, Manoelzinho Salustiano tornou-se antes de tudo um brincante, depois uma voz viva e ativa, e ainda por cima uma liderança da cultura popular de raiz da região da Zona da Mata de Pernambuco. Lá é onde tem Maracatu de Baque Solto, Cavalo Marinho, Mamulengo, Ciranda, Caboclinhos, Boi, Burra e Coco, entre outras expressões, manifestações, folguedos, rodas de poesia, encontros artístico-culturais, rodas de diálogos, festejos, lembranças, acontecimentos, vivências, tecnologia ancestral, atualidade etc.
Aula-espetáculo “Maracatu de Baque Solto e as Histórias dos Mestres de Terreiro” (2026; classificação indicativa livre)
Data: 28/05 (quinta-feira)
Local: Instituto Casa Astral (Rua Joaquim Xavier de Andrade, nº 104 – bairro: Poço da Panela, Zona Norte)
Horário: 19h
Início da retirada de ingressos e abertura dos portões do local: 18h30
A apresentação dispõe do recurso de acessibilidade em Libras (Língua Brasileira de Sinais) para pessoas com deficiência auditiva

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