Por Angélica Souza*

O diagnóstico de um filho com deficiência ou neurodivergência raramente chega sozinho. Ele vem acompanhado de uma agenda extenuante de terapias, burocracias escolares e uma carga emocional que, muitas vezes, silencia a mulher por trás da figura da “mãe guerreira”. Em nossa vivência acadêmica com mães atípicas, realizada pelos alunos de Psicologia da Uninassau, uma pergunta, para mim, ecoou com força em cada relato: quem cuida de quem cuida?

A experiência de extensão me permitiu mergulhar em uma realidade que vai além dos manuais de desenvolvimento infantil. Encontramos mulheres que, em meio ao malabarismo diário, entre os ônibus lotados e as salas de espera das clínicas, acabam por negligenciar a própria saúde mental, o próprio cuidar pessoal, a própria vida. O “ser mãe” torna-se uma função de 24 horas que, sem rede de apoio, leva ao esgotamento físico e psíquico.

A Escuta como Ferramenta de Cura

Durante nosso encontro, pude perceber que o papel da Psicologia ultrapassa a intervenção técnica; ele se firma no acolhimento. Para muitas dessas mães, aquele curto espaço de tempo no ambiente acadêmico da Uninassau tornou-se um dos poucos espaços onde elas puderam despir-se da armadura da força inabalável. Ali, elas não eram apenas “a mãe de Fulano”, mas mulheres com desejos, medos e uma identidade que clama por preservação.

A vivência reforçou que o cuidado com a criança atípica é indissociável da saúde mental de sua cuidadora principal. Quando a mãe adoece, o sistema familiar entra em colapso. Portanto, oferecer um espaço de fala e escuta ativa não é apenas um exercício estudantil, mas um ato de justiça social e saúde pública.

O projeto me ensinou que a “atipicidade” não deve ser um fator de isolamento. É preciso que a sociedade e as políticas públicas compreendam que o suporte psicológico para essas mulheres é uma urgência. Precisamos falar sobre a solidão do cuidado e sobre como o Estado e a comunidade podem dividir esse peso.

Ao final dessa jornada e ao longo dessas semanas refletindo, levei comigo a certeza de que a formação em Psicologia ganha um novo significado quando tocamos o humano. A resposta para a pergunta “quem cuida de quem cuida?” deve ser um esforço coletivo. Que possamos ser, enquanto futuros profissionais e cidadãos, o braço que ampara quem tanto se dedica a segurar o mundo de outra pessoa.

*Jornalista e estudante de Psicologia da Uninassau

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