Na tarde do próximo sábado, a Galeria Maumau se tornará palco de um ritual: não um espetáculo performático no sentido leve do termo, mas uma invocação profunda da experiência materna transformada em arte. A artista têxtil Laura Melo veste-se, literalmente, de sua obra para dar corpo ao que é, ao mesmo tempo, peso e voo. O título da performance — e da exposição — não é só poético, é diagnóstico.
Laura, que costura com linhas e pedras, não está interessada em agradar. Ela não alisa os tecidos nem adoça o gesto. Ao contrário, crava a maternidade no espaço expositivo com a dureza da pedra e a maciez do crochê, numa tensão que beira o insuportável — como o cotidiano de quem materna. Cada ponto do manto vermelho é uma ferida cerzida, uma história guardada. E ao vesti-lo, a artista carrega não só o artefato, mas o fardo e a potência que ele simboliza. As pedras costuradas à trama não são ornamento: são herança, são cobrança, são cansaço e resistência.
O Grupo Risco! entra como extensão da proposta, não como distração. Suas intervenções com modelo vivo atualizam a tradição do estudo do corpo em estado de presença. Aqui, o corpo não é apenas observado, é partícipe de uma coreografia do íntimo, documentando o gesto com reverência. É quase um estudo anatômico da alma.
No bate-papo que se segue — e que felizmente conta com acessibilidade em Libras — há a tentativa de traduzir em palavras aquilo que a performance já disse com eloquência muda. Sob a mediação da curadora Bruna Pedrosa, o debate se volta para a intersecção entre arte têxtil e maternidade — dois campos historicamente relegados ao espaço do doméstico, agora elevados à condição de discurso crítico.
Bruna, aliás, nos entrega um texto curatorial que não se esconde atrás de jargões: ela nomeia o sangue, o cordão umbilical, o vínculo. Reconhece no vermelho não apenas uma cor, mas um sintoma. A performance não é sobre o belo, mas sobre o verdadeiro. E o verdadeiro, por vezes, pesa. “Transformar o peso em poesia”, como diz a curadora, é exatamente o que Laura faz — não com lirismo, mas com precisão brutal.
“O Peso e o Voo” não é para ser visto de relance, nem para ser fotografado em selfie. É uma experiência para ser atravessada. A arte aqui não quer entreter: ela exige. Como a maternidade. Como a vida. Como a arte, quando é arte de verdade.
Serviço:
Performance: O Peso e o Voo, de Laura Melo
🗓️ Sábado, 17 de maio, a partir das 14h
📍 Galeria Maumau – Rua Nicarágua, 173, Espinheiro, Recife
👁️🗨️ Entrada gratuita
🖼️ Exposição até 24 de maio
Mais informações: @opesoeovoo

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